Autor: Raphael Karamázov

  • o tubérculo – Poema

    o tubérculo

    O homem positivo uma vez disse:
    ao vencedor, as batatas
    ao vencido, ódio ou compaixão.

    Mas eu,
    o tubérculo do byronismo, digo:
    ao vencido, rifampicina
    ao vencedor,
    mycobacterium com expectoração!
  • Ironia biológica – Crônica

    Ironia biológica

    Gosto de estar doente. Meu corpo se torna mole, suave, uma gelatina de colágeno. Poderiam dar uma colherada no meu cérebro, ele derreteria em prazer. Não queria ter tomado o remédio.
    Gripado, meu catarro não leva apenas os microorganismos embora. Leva as ideias, minha pneumonia cerebral.
    Me sinto sem energia. Estando são, eu conseguiria pensar; teria disposição para escovar os dentes, teria disposição para formar um nó em minha garganta, torcendo minhas cordas vocais de dentro para fora.
    Eu travo. Sinto o horror emergir. O estridor dos gritos. Escuto eles na beira da minha cama, falando sobre mim. Creio que não há anti-inflamatório para isso.
    Mas, quando estou doente, eles se afogam. Dispneico, a esperança respira. Meu corpo não tem energia para alimentá-los.
    Eles agora são sussurros, abafados pela orquestra torácica. Do fundo do meu pulmão, com meus alvéolos inundados, eles sibilam. Não há excedente energético para pensar no fim. Moribundo, nunca tive tantos planos. Cataléptico, sonho em fugir de minhas mãos, que anseiam pelo meu corpo.
    Minha face é mais ardente que qualquer incêndio. Poderiam ferver qualquer ideação nesse rosto febril. Uma boa purgação sairia disso. As mãos purulentas, que tentam se enfiar nos meus pensamentos, se tornando puro plasma. Convulsões abalando todos os cenários imaginados. Os pecados não me consomem mais, a carcaça precisa queimar os estreptococos.

    Acho que a pílula está funcionando. O suor começa a me abandonar, a vitalidade volta a correr sob minha pele. Sinto que os demônios escorregam os dedos em mim, fluindo para meus capilares.
    Como eu faço para ter o nariz trancado novamente?
  • creatio ex nihilo – Poema

    creatio ex nihilo

    me espetaram com seu tridente
    tentaram me operar
    lobotomização

    me libertei da cruz e da balança
    fugi do átomo e da grife
    apaguei o número
    cheguei ao Fim.

    mas não restava mais

    nada

    se não existe nada
    me nadificarei
    nadar-me-ei
    para nadar até o fim

    nadando agora, numa tela
    banheira de sangue
    tão bela
    minha nave espacial
    feita dos parafusos
    da minha prisão
    para voar com ainda mais dor
    até poder
    nadar nas estrelas
  • spam – poema

    spam

    descarte
    seu ego
    não pense

    descartes
    logo
    clicará

    destarte
    queimará até que

    seja

  • Vaca niilista – Crônica

    Vaca niilista

    Meu pano, minha água e meu detergente são os maiores genocidas que eu conheço. É engraçado, se eu pisoteasse um gato até que ele morresse, eu seria preso por maus-tratos aos animais.
    Mas, quando eu como o bife oriundo das vacas, todos batem palma. Afinal, quem não gosta de um churrasco?
    Quanto mais raras, mais caras são as vacas. Uma vaca falante, que desenvolve uma filosofia niilista própria, seria a vaca mais valiosa do mundo. O frigorífico faria uma festa por ter esse espécime.
    Eles lucrariam muito. Até vejo um grande leilão, numa ilha tropical. Helicópteros de todo o planeta indo até lá. Um lance atrás do outro, uma gritaria. Enquanto isso, os pobres estudantes de filosofia infiltrados estariam anotando vorazmente a sabedoria do bovino, com água na boca pelo conhecimento.
    Logo chegaria o valor vencedor: um bilionário hedonista comeria a vaca niilista.
    Aposto que esse bilionário nunca foi niilista. Aquela ilha era uma velha conhecida dele e seus amigos. Tendo tanta vida em potência no banco, ele pode transformar em ato qualquer vontade que tiver.
    Mas ele não fez mais isso.
    Alguns dias depois de degustar a tão comentada vaca niilista, ele compra um conversível vermelho e bate em alta velocidade.
    Não foi um acidente de trânsito, como todos pensam. Sei que foi proposital.
    Da água que ele urinou e foi para o esgoto. Do esgoto, para o lençol freático. Do lençol freático, para a mamãe vaca. Da mamãe vaca, para o leite mamário. Do leite mamário, para a vaca niilista. Da vaca niilista, para o bilionário. Do prato do bilionário, para o poste pintado em vermelho.
    Agora seus miolos estão espalhados pela rua. Alguns transeuntes tiram fotos, outros até recolhem os restos de maneira escondida. Seus órgãos têm proteínas da almejada vaca niilista. Visão estupenda.
    Uma profecia autorrealizada. A vaca niilista o contaminou, ou foi ele quem contaminou a vaca?

    Ninguém ficaria comovido com a morte da vaca niilista. Claro, os amantes dos animais ficariam. Uma vaca falante seria algo para ser estudado, e não comido.
    Os amantes dos animais protestariam com raiva contra o bilionário. Queimando bancos, quebrando vidraças, e nesse processo, esmagando formigas.
    Curioso, não vejo os amantes dos animais defendendo formigas. Nem falando do meu detergente. Com ele, eu limpo minha mesa. Com meu pano, eu esmago milhares de microrganismos.
    Eu massacro as formigas. Eu me torno o senhor dos mundos, aquele que decide quem vive e quem morre. Potência infinita.

    De qualquer forma, com meu pano, minha água e meu detergente, os miolos começam a desgrudar do asfalto.

  • Soneto do beta – Poema

    Soneto do beta
    
    Sete anos de mangina Jacó betava  
    Chadão, pai de Raquel, stacey bela;  
    Mas não queria ser alfa, era um beta,  
    E a ela só por pussy pretendia.
    
    Os dias, na copagem de um só dia,  
    Passava, contentando-se com segui-la;  
    Porém o chad, usando de moggada,  
    Em lugar de Raquel lhe dava becky.
    
    Vendo o triste beta que com bluepill  
    Lhe fora assi negada a sua dama,  
    Como se a não tivera conquistado;
    
    Começa de servir outros mil anos,  
    Copando: – Mais betara, se não fora  
    Para tão longo coito tão curta a pill!
    
    P.S.: releitura do poema "Sete anos de pastor Jacó servia", de Camões

  • formigão – Poema

    formigão

    a pequena formiguinha quis
    metamorfosear
    mergulhando na relva
    quis quis quis?

    ela cresceu 
    agora um formigão 
    mas continuava uma
    pequenina formiguinha
    não importa quantas folhas
    perto delas, seria sempre…

    for me, gone
    for you,
    just leaves

  • o afogamento – Poema

    o afogamento

    meu sonho
    é ser um corpo sem órgãos

    mas sou um órgão sem corpo
    sem notas para tocar,
    um órgão sem catedral,

    um órgão
    cem corpus
  • diable royale – Poema

    diable royale

    quatro, nove, dez
    doze, dezessete!
    vinte...
    [será que não estou velho já?

    vinte e um!

    mas o dealer me diz
    que não é blackjack, é 20
    hora de (a)pagar as fichas
  • balão – Poema

    balão

    Fui levado até a oficina de Adão
    para ser calibrado.
    Colocaram o compressor em minha boca,
    fui inflado até me esferizar,
    para ser solto pelos ares.

    Voei.
    Cheio de mim mesmo, e de ar.
    Me inclinando contra o vento
    para decidir meu rumo nos céus.
    Quase fui triturado pela turbina
    que veio me buscar.

    Cheguei perto demais do sol,
    mas meu nome não é Ícaro
    então o abracei.
    Só estourei quando caí no mais completo vácuo,
    após a morte de todas as estrelas.