Categoria: Poesias

  • porco espinho – Poema

    porco espinho

    Sempre gostei do Sonic.
    Assim como [eu?]
    o Sonic corre
    em busca de seu sonho.
    Sônica é a velocidade
    com a qual eu corro
    dos afetos que me buscam.

    Sonic salva
    os animais sequestrados.
    transformados em robôs,
    eficientes em seguir ordens.
    [talvez ele pudesse me salvar]
    Estou nessa máquina
    pronta para perecer.

    Uma vez, eu li um velho alemão
    falar sobre porcos espinhos
    morrendo no inverno.
    Como se aproximar?
    Como se aquecer?
    Sem se espetar?
    Sem se tornarem porcos
    sem espinhos.

    Mas o animal amedrontado,
    temendo mais uma sangria,
    prefere o amargo abraço da hipotermia
    ao aconchego do sangue fervente.

    talvez eu não seja o Sonic

    não sou.
    Sou um porco sem espinhos,
    chafurdando na neve.
    Em passos lentos.
    Esperando ser perfurado
    para descobrir o que é amor.
  • entre – Poema

    entre

    entre lá e entre cá
    entre um oi e até já
    entre aqui e o será
    entre o fique e o vá

    eu escolho
    não entrar

  • Macaco do séc. XXI – Poema

    Macaco do séc. XXI

    Logo quando caí do galho,
    Sun Wukong me segurou pelo cangote
    e gritou: u u u u u u u.

    Os bonobos me espiam.
    Fujo fujo fujo
    não sou não não sou não.
    Cuspo o bonobo para fora do peito.
    ele grita sem parar

    Metrô descascando os trilhos.
    Macaco aranha não cobra bilhete.
    Rápido pulando pelado,
    pelas persianas dos prédios.
    Eu pulei fui mais.
    obstáculo na linha azul

    Há a pele lisa,
    sem pelos sem grito.
    Mico martirizado.
    Editou a genética
    e fez a barba.

    Genes, por que me fizeste comum,
    se sabias que eu era Deus,
    se sabias que não sou meu vizinho.

    Tango orango orango tango,
    se eu fosse um caçador,
    poderia tocar um orangotango.
    Caco macaco caco,
    não sou, não?

    Eu não deveria pular,
    mas essa vodka,
    mas esse barbeador,
    estão me cortando.
    Trezentos e treze espécies de macacos

    extintas

    PS: Paródia do poema “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade

  • arbitrariedade da minha defesa – Poema

    arbitrariedade da minha defesa

    Isso é um significante?
    ou um significado?

    De qualquer forma,
    não me interessa.
    Signos não existem,
    ideias são convenções.

    ...
    Mas,
    pra você:
    sigo significando
    algo?
  • caco macaco caco – Poema

    caco macaco caco

    caco macaco caco
    macaco caco macaco
    maca macaco maca
    acaco maca macaco
    Primata romano proletário

    macaco macaco macaco
    chimpanzé gorila orangotango
    nós nós nós
    saber saber saber
    cristão semita xiita
    Fogueira neles

    macaco caco macaco
    caco maca acaco
    sagui mico mico leão
    Crianças perfuradas
    sangue sangue sangue
    grite grite grite
    Joga bosta nele
    macaco macaco macaco

    bugio bonobo babuíno
    platão hobbes nietzsche
    caco macaco caco
    darwin watson crick
    bomba bomba bomba

    macaco caco macaco
    caco macaco caco
    pula pula pula
    queima queima queima
    oceano subiu subiu
    cidade sumiu sumiu
    macaco sumiu sumiu

    sumiu
  • amizade – Poema

    amizade

    gostaria que todos meus amigos morressem
    de uma forma trágica
    todos em um único momento

    assim nunca mais eu precisaria
    encarar ninguém
    e teria motivo suficiente
    para pisar sem ser tocado
    com os sobreviventes limpando minhas sujeiras
    e bebendo dos meus rastros

    dessa forma pode ser
    que eu não precise enfrentar
    a remota possibilidade
    de perceber que talvez
    eu não seja um bom amigo
  • Streptococcus pneumoniae – Poema

    Streptococcus pneumoniae

    Começou a consolidação.
    Um demônio nos tornou maciços,
    exsudato por toda parte.
    Dióxido de carbono,
    cuspido pelo diafragma neurótico.

    Os murmúrios cedem aos ruídos,
    nosso sangue se torna alcalino.
    Amoxicilina padroeira perfunde
    mas os gram-positivos, selecionados
    crucificam nosso pulmão.

    Meus pés gelados.
    Minha pele fervente.
    As mitocôndrias vomitam
    seu ácido.

    Os acessórios não
    aguentam mais.
    Carbono escurece
    meu cérebro.
    Os cocos.
    Em cadeia,
    indiferentes.

    Insuficiência.
    Contemplo os céus
    com minhas
    asas nasais,
    amarradas
    nessa maca.
  • a árvore e a floresta – Poema

    a árvore e a floresta

    eu, você, ele
    nós, vocês, eles

    me perdi em nós
    "nós" não é "eu"
    nós não somos eu

    "eus"
    onde está?
  • o tubérculo – Poema

    o tubérculo

    O homem positivo uma vez disse:
    ao vencedor, as batatas
    ao vencido, ódio ou compaixão.

    Mas eu,
    o tubérculo do byronismo, digo:
    ao vencido, rifampicina
    ao vencedor,
    mycobacterium com expectoração!
  • creatio ex nihilo – Poema

    creatio ex nihilo

    me espetaram com seu tridente
    tentaram me operar
    lobotomização

    me libertei da cruz e da balança
    fugi do átomo e da grife
    apaguei o número
    cheguei ao Fim.

    mas não restava mais

    nada

    se não existe nada
    me nadificarei
    nadar-me-ei
    para nadar até o fim

    nadando agora, numa tela
    banheira de sangue
    tão bela
    minha nave espacial
    feita dos parafusos
    da minha prisão
    para voar com ainda mais dor
    até poder
    nadar nas estrelas