
o tubérculo
O homem positivo uma vez disse:
ao vencedor, as batatas
ao vencido, ódio ou compaixão.
Mas eu,
o tubérculo do byronismo, digo:
ao vencido, rifampicina
ao vencedor,
mycobacterium com expectoração!

o tubérculo
O homem positivo uma vez disse:
ao vencedor, as batatas
ao vencido, ódio ou compaixão.
Mas eu,
o tubérculo do byronismo, digo:
ao vencido, rifampicina
ao vencedor,
mycobacterium com expectoração!

Ironia biológica
Gosto de estar doente. Meu corpo se torna mole, suave, uma gelatina de colágeno. Poderiam dar uma colherada no meu cérebro, ele derreteria em prazer. Não queria ter tomado o remédio.
Gripado, meu catarro não leva apenas os microorganismos embora. Leva as ideias, minha pneumonia cerebral.
Me sinto sem energia. Estando são, eu conseguiria pensar; teria disposição para escovar os dentes, teria disposição para formar um nó em minha garganta, torcendo minhas cordas vocais de dentro para fora.
Eu travo. Sinto o horror emergir. O estridor dos gritos. Escuto eles na beira da minha cama, falando sobre mim. Creio que não há anti-inflamatório para isso.
Mas, quando estou doente, eles se afogam. Dispneico, a esperança respira. Meu corpo não tem energia para alimentá-los.
Eles agora são sussurros, abafados pela orquestra torácica. Do fundo do meu pulmão, com meus alvéolos inundados, eles sibilam. Não há excedente energético para pensar no fim. Moribundo, nunca tive tantos planos. Cataléptico, sonho em fugir de minhas mãos, que anseiam pelo meu corpo.
Minha face é mais ardente que qualquer incêndio. Poderiam ferver qualquer ideação nesse rosto febril. Uma boa purgação sairia disso. As mãos purulentas, que tentam se enfiar nos meus pensamentos, se tornando puro plasma. Convulsões abalando todos os cenários imaginados. Os pecados não me consomem mais, a carcaça precisa queimar os estreptococos.
Acho que a pílula está funcionando. O suor começa a me abandonar, a vitalidade volta a correr sob minha pele. Sinto que os demônios escorregam os dedos em mim, fluindo para meus capilares.
Como eu faço para ter o nariz trancado novamente?

creatio ex nihilo
me espetaram com seu tridente
tentaram me operar
lobotomização
me libertei da cruz e da balança
fugi do átomo e da grife
apaguei o número
cheguei ao Fim.
mas não restava mais
nada
se não existe nada
me nadificarei
nadar-me-ei
para nadar até o fim
nadando agora, numa tela
banheira de sangue
tão bela
minha nave espacial
feita dos parafusos
da minha prisão
para voar com ainda mais dor
até poder
nadar nas estrelas

Vaca niilista
Meu pano, minha água e meu detergente são os maiores genocidas que eu conheço. É engraçado, se eu pisoteasse um gato até que ele morresse, eu seria preso por maus-tratos aos animais.
Mas, quando eu como o bife oriundo das vacas, todos batem palma. Afinal, quem não gosta de um churrasco?
Quanto mais raras, mais caras são as vacas. Uma vaca falante, que desenvolve uma filosofia niilista própria, seria a vaca mais valiosa do mundo. O frigorífico faria uma festa por ter esse espécime.
Eles lucrariam muito. Até vejo um grande leilão, numa ilha tropical. Helicópteros de todo o planeta indo até lá. Um lance atrás do outro, uma gritaria. Enquanto isso, os pobres estudantes de filosofia infiltrados estariam anotando vorazmente a sabedoria do bovino, com água na boca pelo conhecimento.
Logo chegaria o valor vencedor: um bilionário hedonista comeria a vaca niilista.
Aposto que esse bilionário nunca foi niilista. Aquela ilha era uma velha conhecida dele e seus amigos. Tendo tanta vida em potência no banco, ele pode transformar em ato qualquer vontade que tiver.
Mas ele não fez mais isso.
Alguns dias depois de degustar a tão comentada vaca niilista, ele compra um conversível vermelho e bate em alta velocidade.
Não foi um acidente de trânsito, como todos pensam. Sei que foi proposital.
Da água que ele urinou e foi para o esgoto. Do esgoto, para o lençol freático. Do lençol freático, para a mamãe vaca. Da mamãe vaca, para o leite mamário. Do leite mamário, para a vaca niilista. Da vaca niilista, para o bilionário. Do prato do bilionário, para o poste pintado em vermelho.
Agora seus miolos estão espalhados pela rua. Alguns transeuntes tiram fotos, outros até recolhem os restos de maneira escondida. Seus órgãos têm proteínas da almejada vaca niilista. Visão estupenda.
Uma profecia autorrealizada. A vaca niilista o contaminou, ou foi ele quem contaminou a vaca?
Ninguém ficaria comovido com a morte da vaca niilista. Claro, os amantes dos animais ficariam. Uma vaca falante seria algo para ser estudado, e não comido.
Os amantes dos animais protestariam com raiva contra o bilionário. Queimando bancos, quebrando vidraças, e nesse processo, esmagando formigas.
Curioso, não vejo os amantes dos animais defendendo formigas. Nem falando do meu detergente. Com ele, eu limpo minha mesa. Com meu pano, eu esmago milhares de microrganismos.
Eu massacro as formigas. Eu me torno o senhor dos mundos, aquele que decide quem vive e quem morre. Potência infinita.
De qualquer forma, com meu pano, minha água e meu detergente, os miolos começam a desgrudar do asfalto.

Soneto do beta Sete anos de mangina Jacó betava Chadão, pai de Raquel, stacey bela; Mas não queria ser alfa, era um beta, E a ela só por pussy pretendia. Os dias, na copagem de um só dia, Passava, contentando-se com segui-la; Porém o chad, usando de moggada, Em lugar de Raquel lhe dava becky. Vendo o triste beta que com bluepill Lhe fora assi negada a sua dama, Como se a não tivera conquistado; Começa de servir outros mil anos, Copando: – Mais betara, se não fora Para tão longo coito tão curta a pill! P.S.: releitura do poema "Sete anos de pastor Jacó servia", de Camões

formigão
a pequena formiguinha quis
metamorfosear
mergulhando na relva
quis quis quis?
ela cresceu
agora um formigão
mas continuava uma
pequenina formiguinha
não importa quantas folhas
perto delas, seria sempre…
for me, gone
for you,
just leaves

o afogamento
meu sonho
é ser um corpo sem órgãos
mas sou um órgão sem corpo
sem notas para tocar,
um órgão sem catedral,
um órgão
cem corpus

diable royale
quatro, nove, dez
doze, dezessete!
vinte...
[será que não estou velho já?
vinte e um!
mas o dealer me diz
que não é blackjack, é 20
hora de (a)pagar as fichas

balão
Fui levado até a oficina de Adão
para ser calibrado.
Colocaram o compressor em minha boca,
fui inflado até me esferizar,
para ser solto pelos ares.
Voei.
Cheio de mim mesmo, e de ar.
Me inclinando contra o vento
para decidir meu rumo nos céus.
Quase fui triturado pela turbina
que veio me buscar.
Cheguei perto demais do sol,
mas meu nome não é Ícaro
então o abracei.
Só estourei quando caí no mais completo vácuo,
após a morte de todas as estrelas.