Sempre gostei do Sonic. Assim como [eu?] o Sonic corre em busca de seu sonho. Sônica é a velocidade com a qual eu corro dos afetos que me buscam.
Sonic salva os animais sequestrados. transformados em robôs, eficientes em seguir ordens. [talvez ele pudesse me salvar] Estou nessa máquina pronta para perecer.
Uma vez, eu li um velho alemão falar sobre porcos espinhos morrendo no inverno. Como se aproximar? Como se aquecer? Sem se espetar? Sem se tornarem porcos sem espinhos.
Mas o animal amedrontado, temendo mais uma sangria, prefere o amargo abraço da hipotermia ao aconchego do sangue fervente.
talvez eu não seja o Sonic
não sou. Sou um porco sem espinhos, chafurdando na neve. Em passos lentos. Esperando ser perfurado para descobrir o que é amor.
gostaria que todos meus amigos morressem de uma forma trágica todos em um único momento
assim nunca mais eu precisaria encarar ninguém e teria motivo suficiente para pisar sem ser tocado com os sobreviventes limpando minhas sujeiras e bebendo dos meus rastros
dessa forma pode ser que eu não precise enfrentar a remota possibilidade de perceber que talvez eu não seja um bom amigo
Sempre fui de brincar com besouros. Deixando-os de ponta cabeça, vendo se contorcerem, sem desconfiar que quando enfim voltassem, logo seriam pisoteados.
Quando a vida me deu antenas, nem tentei me levantar.
listas de leituras que vão desmontar seu mundo listas dos filmes mais aclamados pela comunidade listas das paisagens mais lindas listas dos melhores produtos para comprar lista das melhores listas de música alternativa listas de experiências imperdíveis para ter antes de morrer
ordenamos e classificamos e nomeamos, não assistimos nem jogamos nem ouvimos, buscando eficiência máxima queremos prazer e erudição não vamos desperdiçar nossa tarde
mas sempre, antes de dormir, procuro a lista de emoções que deveria sentir. quero meu rótulo e não encontro, tampouco acho a crítica do meu personagem, nem o manual de instruções, nem o roteiro que eu devo seguir.
a insônia tem sabor de sonhos ainda não começados na iminência de se realizarem mas impedidos pelo ruído estridente do maquinário cerebral
sonhos que nunca verão a luz do dia tampouco a luz do sono oriundos de uma mente frágil e inquieta incapaz de ter um pensamento [quem me dera um pesadelo!] para que uma fagulha de vida nascesse em minhas entranhas
a insônia tem sabor de mágoa uma cachoeira de lágrimas salgadas que flui pelas correntezas do arrependimento eternos erros passados e infinitas certezas de falhas no futuro
a mais completa certeza do erro é pensada de maneiras infindáveis na cama de um lado para o outro do outro para o lado certeza da decepção cometida minha mente com sono oficina de insegurança
a insônia tem sabor de morte uma morte da esperança esperança de talvez acordar cedo para um novo dia tem sabor podre da morte que se esconde sob minha pele deste meu corpo que dorme até cinco da tarde [em uma terça feira comum]
a insônia tem sabor agora, de tanto pensar em sabores além de cansado e irritado estou com fome