Tag: deslocamento

  • porco espinho – Poema

    porco espinho

    Sempre gostei do Sonic.
    Assim como [eu?]
    o Sonic corre
    em busca de seu sonho.
    Sônica é a velocidade
    com a qual eu corro
    dos afetos que me buscam.

    Sonic salva
    os animais sequestrados.
    transformados em robôs,
    eficientes em seguir ordens.
    [talvez ele pudesse me salvar]
    Estou nessa máquina
    pronta para perecer.

    Uma vez, eu li um velho alemão
    falar sobre porcos espinhos
    morrendo no inverno.
    Como se aproximar?
    Como se aquecer?
    Sem se espetar?
    Sem se tornarem porcos
    sem espinhos.

    Mas o animal amedrontado,
    temendo mais uma sangria,
    prefere o amargo abraço da hipotermia
    ao aconchego do sangue fervente.

    talvez eu não seja o Sonic

    não sou.
    Sou um porco sem espinhos,
    chafurdando na neve.
    Em passos lentos.
    Esperando ser perfurado
    para descobrir o que é amor.
  • balão – Poema

    balão

    Fui levado até a oficina de Adão
    para ser calibrado.
    Colocaram o compressor em minha boca,
    fui inflado até me esferizar,
    para ser solto pelos ares.

    Voei.
    Cheio de mim mesmo, e de ar.
    Me inclinando contra o vento
    para decidir meu rumo nos céus.
    Quase fui triturado pela turbina
    que veio me buscar.

    Cheguei perto demais do sol,
    mas meu nome não é Ícaro
    então o abracei.
    Só estourei quando caí no mais completo vácuo,
    após a morte de todas as estrelas.
  • inerte – Poema

    inerte 

    a criança acorda de mais uma noite de sono
    decide finalmente ser o algoz. uma pedra
    escolhida a dedo por ser uma pedra qualquer
    ela arremessa a pedra como se alcançasse algo
    mas a pedra não quica no rio
    afunda

    levada pelas correntezas
    a pedra não lutou contra o menino
    arrastada por todo o leito fluvial
    atingindo diversos peixes
    mas sem tocar nenhum

    a pedra conhece todos os oceanos,
    todos os leitos, todo a predação
    tantas oportunidades de metamorfose
    se tornar bauxita, rubi, topázio
    participar de aneis, armaduras, parafusos
    mas ela permanece sendo arrastada
    sem questionar
    sem desviar
    sem tentar
    mesmo contemplando o ardor das rochas magmáticas
    as esculturas criadas do mármore
    até mesmo a velocidade do silício

    uma massa solta
    indiferente à fundição que a espera
    a pedra quer ser escolhida em paz
    sem sedimentar sua existência
    até virar mais uma pedra

    não vou, não sou, eu quero
    quero ser arremessado
    um Geworfenheit
    afundando até morrer
  • sonho – Poema

    sonho

    perdido
    errando nas vielas de
    um palco onírico
    e a realidade
    uma espiral ao mesmo ponto de antes

    sonhei com você esta noite
    (ou nos vimos semana passada?)
    irrelevante
    [apenas sentir]

    angústias em todo lugar
    ferindo minha pele imunda
    me faça fugir
    [para algum lugar bom

    escapo
    admiro a imensidão
    retorno
    minha carcaça corpórea
    sou?
    prisioneiro da carne
    eterno fluido transcendente

    não te vejo mais
    capto apenas impressões
    [que escorrem igual suas lágrimas naquela noite]
    do que um dia nós fomos
    meu cristalino converge toda a realidade
    em uma fotografia opaca de mim mesmo
    não esboço mais
    nem sentimentos nem razões
    nenhum rascunho de alma nasce do meu lápis sem ponta
    tão presente e tão longínquo
    por dentro grito
    [mas não preste atenção

    queimo minha face com o rubor
    a falsa lanterna que me dá esperança
    e proclamo
    mas danço conforme o palco
    e a plateia

    não lembro mais
    perdi a lembrança da maciez do seu toque
    acho que esqueci quem sou
  • festas – Poema

    festas

    luzes radiantes rasgando minha retina
    dormente
    sons estonteantes em minha mente sussurram
    ausente
    “olhe as perturbações que sua maldita cabeça
    sente
    não é seu lugar, até quando vai continuar,
    demente”
    finjo que não ouço, mas está em todo lugar
    as vezes penso, se meu lugar não é em marte
    longe de tudo isso, quem sabe assim eu seja
    feliz