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  • Um viajante feliz – Conto

    Um viajante feliz

    De país em país eu fugia. Eu precisava fugir, não havia outra escolha. Sempre que eu chegava num lugar novo, eu estava num útero de ignorância que me lembrava dos bons tempos placentários. Eu me comunicava apenas de uma forma instrumental, através desse meu cordão umbilical, que me trazia comida através de sinais universais. Para dormir, eu sorrateiramente seguia turistas mais preparados.
    Nunca parei para admirar as particularidades de cada cidade. Você percebe que qualquer canto desse planeta se parece muito com qualquer outro quando você conhece demais. Pessoas atrasadas são a gramática produtiva universal; adolescentes namorando felizes, e velhos os olhando pelas janelas, lembrando de seus tempos joviais. Mas entre toda essa norma padrão, lá estava eu, esse travessão colocado errado, apenas observando o resto da frase viver.

    Meu primeiro destino foi Berlim. Era impossível chorar naquela cidade. Como ficar revoltado lendo os jornais, se eu apenas achava engraçadas as palavras que os alemães usavam? Tudo que estava escrito parecia palavrões, me encantava esse idioma. Eu gargalhava ao ver as charges sobre seus problemas alienígenas, assim como eu fazia na infância.
    No começo não foi tão fácil, apesar disso. Algumas vezes passei fome e frio. Parece que dentro das pessoas há uma conjugação climática. Talvez seja o jeito que as pessoas reagem a mudanças simples de clima, conseguindo prever de forma instintiva o que irá acontecer. Como eu estava analfabeto, ninguém me avisou que a temperatura cairia tanto de um dia para o outro.
    De qualquer forma, como eu saberia onde comprar um bom casaco, se eu nem conseguia sair da minha pensão sem mexer minhas mãos como um lunático?
    Às vezes, algum trombadinha roubava uma carteira. Eu nem chegava a perceber sua chegada a tempo, e ele já voava através de nós usando uma bicicleta. Todos os transeuntes gritavam, apontavam, acho que algo como “pega ladrão!”.
    Na primeira vez, foi como ouvir um rádio quebrado. Na décima, sem precisar olhar eu já sabia o que estava acontecendo. Na centésima, eu entendia: “fangt den Dieb!”.
    Foi quando percebi que estava me tornando um alemão.
    Tudo começou a dar errado a partir daí. De tanto observar aquele povo e suas conversas, eu estava começando a entender o que eles diziam. O casal de adolescentes, que era tão feliz, agora era formado por jovens adultos brigando, e eu entendia cada sílaba de ressentimento que emanava deles. O velhinho que os observava, agora jazia numa cova, e eu ouvia seu filho chorar e entendia sua mágoa. Cada promessa feita e não cumprida, agora era cristalina para mim.
    Aquilo não estava certo. Eu precisava fugir, de novo.

    Resolvi mudar de ares, mas preferi continuar na Europa. Havia algo no velho mundo que me fascinava. Agora eu estava em Paris, a terra dos amores, das revoluções. A terra dessa língua, em que cada letra parece inútil. Provavelmente era o que eu buscava. Eu poderia até começar a captar os significados novamente, mas nunca traduziria esses sons abstratos em frases.
    O maior problema dessa cidade eram os turistas. Ficar longe da Torre Eiffel era uma questão de vida ou morte. Cada vez que um “guten Morgen” ou “um bom dia” atravessava meu tímpano, um arrepio percorria minha espinha. A adrenalina disparava, e eu fugia como se fosse um pequeno mamífero perante um deus cósmico. Apesar disso, os subúrbios da cidade ainda me alegravam.
    Ver os franceses vivendo suas vidas era minha maior diversão. Os casais apaixonados, que alegria era poder ver sem entender! Até quando as brigas exalavam no olhar de choro ou na gesticulação alarmada, eu não me importava. Apenas desviava o olhar e tudo estava normal novamente.
    Eu pegava meus euros, apontava para os pãezinhos, e passava os dias a alimentar os pombos, admirando o rio Sena.
    Infelizmente o cheiro parece ser algo que está além dos entendimentos. Os ratos e a falta de banho dos franceses me faziam querer vomitar, vomitar de alegria! Saber que meus problemas agora eram apenas físicos me trazia tanto prazer, que eu tentei criar ratos onde eu morava, mas o meu locatário não permitiu. Nunca mais eu refletiria sobre meus erros, eu não sabia nem como chamar um garçom sem ser levantando a mão. Tudo estava resolvido.
    Certo dia, vi uns jovens bem enérgicos protestando. Provavelmente eram universitários, esses amantes tolos das palavras. Égalité, fraternité, acho que era algo assim que eles estavam balbuciando. Isso me assustou muito; mesmo sem nunca ter estudado a fundo essa cultura, era impossível não reconhecer esses fonemas tão familiares. Um “bonjour” era meu maior pesadelo, era um lembrete de que essa maldição fonética existia.

    Numa bela tarde de julho, o calor estava insuportável. Saí apenas de regata, com minha baguete e meu objetivo de alimentar os ratos alados, acredito que os chamam de pombos.
    Seria mais um dia comum na minha bela nova vida. Apontando para os pãezinhos na padaria, caminhando e escolhendo um bom banco.
    Depois de algumas horas ali, quando o crepúsculo estava começando a se desenhar no céu, uma velha francesa se aproximou e sentou ao meu lado. Estava quase acabado o meu trabalho naturalístico, os pombos estavam preparados para alçar voo, mas ela começou a dar migalhas para meus amigos também.
    Era algo inofensivo, essa senhora até tentou interagir comigo, mas felizmente logo compreendeu que eu, graças ao nosso bom Deus, não sabia nada desse idioma.
    No dia seguinte, novamente segui em minha jornada. Escolhi um lugar para sentar, e fiquei observando o trajeto do nosso querido Sol. Dessa vez, a velha chegou mais cedo, e novamente estava alimentando os pombos. Ela não tentou falar comigo dessa vez. Apenas ficamos ali, juntos em nossa tarefa.
    Mas ela começou a se comunicar com aqueles seres. Eu não entendia nada, mas acho que ela confundia as aves com um amigo. Quando os animaizinhos voaram, me levantei para partir e logo ela também se foi.
    A partir de então, todos os dias, não importava em qual banco eu me sentasse, a velha francesa estava lá, me roubando o papel de provedor fundamental e conversando com os pombos. O que eu mais amava naquelas criaturas era a companhia silenciosa que me ofereciam.
    Uma vida tão simples: voar, comer migalhas de pão, defecar no carro dos pobres franceses, criar ninhos. Eles sofriam com o frio, com o calor, com predadores naturais. Mas um pombo não se sentia inseguro, seus “pru” não permitiam que ele se martirizasse. Certa vez, um deles até teve a ousadia de pousar no meu colo quando cochilei. Agora, essa senhora ficava tagarelando e atrapalhando minha missão.
    As coisas começaram a desandar quando ela começou a trazer o seu neto com ela. Alguns livros infantis, algumas brincadeiras. Ela tentava fazer com que o pequeno algum dia tivesse interesse em Proust.
    O moleque atazanava os pobres pombos, perturbando ainda mais nossa paz, e para piorar, ela ficava ensinando palavras, frases, associando as malditas letras com os desenhos nos livros. Um dia levantei e mudei de banco, bufando, tentando demonstrar minha indignação. Mas os dois logo vieram me perseguir.
    Por que aquela senhora estava tão determinada em me expulsar do meu paraíso? Eu não poderia sequer expulsá-la, como fazer isso sem articular as malditas palavras nas minhas pregas vocais?
    Conforme o menino crescia em altura, também crescia em mim um vocabulário francês. A estrutura dessa língua demoníaca havia penetrado no fundo do meu cérebro, refazendo minhas vias neurais, que ficaram tanto tempo intactas. Eu estava começando a olhar para cães e pensar em “chiots”.
    O neto parou de acompanhar a avó, mas as conversas com os pombos continuaram. Não só isso, agora eu começava, aos poucos, entender o que aquela mulher tanto lamentava.
    A cada dia ela trazia uma emoção diferente. Eu estava montando um quebra cabeça linguístico, cada peça era um dia de sua vida. A euforia do seu casamento, a desolação da morte de seu pai, o dia em que seu marido sofreu um acidente de trânsito e eles ficaram sem saber como pagar o aluguel. Cada uma dessas incertezas, cada uma dessas angústias que os pombos não compreendiam nem um pouco, estavam contaminando minha mente.
    Na padaria, a conversa dos outros clientes estava se tornando mais clara. Ao andar ao redor dos grandes monumentos, não só os turistas me faziam tremer, mas cada espécime humano estava acabando com a minha sanidade.
    Quando um pedinte me estendeu a mão atrás de uma moeda, e eu entendi sua frase e pedido de caridade, eu percebi: Paris fracassou comigo.
    Com aquela capacidade mental que eu adquirira, era questão de tempo até todos aqueles pensamentos voltarem. Eu precisava fugir novamente. A cidade do amor me trazia apenas pânico. Os casais apaixonados em lua de mel quase me arrancavam lágrimas de emoção, mas eram lágrimas de desespero. Não podia continuar assim, a Europa havia me contaminado, era hora de ir para um lugar completamente diferente. Corri para o aeroporto, completamente transtornado, e subi no primeiro voo para fora daquele continente maldito.
    Pequim, meu novo lar!

    Finalmente, eu havia alcançado a liberdade! Se o alfabeto latino ainda me trazia associações terríveis, os ideogramas chineses eram algo completamente estrangeiro. Observar toda a tecnologia que aquela cidade oferecia, os grandes prédios belíssimos, a diversidade da arquitetura chinesa. Nunca pensei que o ser humano fosse capaz de algo assim. Nem as pessoas eram iguais a mim! Finalmente, não via apenas brancos ao meu redor, pessoas-espelho, que mostram que em mim há capacidades inatas de me tornar igual a eles. Sou único aqui.
    Desembarcar do avião foi a parte mais complicada. As placas em inglês, a profusão de línguas e turistas fizeram com que meu cérebro começasse a fritar. Corri o mais rápido possível para um táxi, joguei várias notas nele, juntei minhas mãos e inclinei a cabeça sobre elas. Creio que ele entendeu o recado. Logo eu estava num belo hotel, onde receberia tratamento diferenciado.
    O saguão era magnífico. A melhor parte de estar numa cultura totalmente diferente é a completa alienação com tudo que me rodeava. Ao ver o nome dos restaurantes na Alemanha, os sobrenomes me deixavam arrepiado, me traziam lembranças de amigos que descendem daquelas pessoas. Mas a China, glória ao bom Senhor que suas relações imigratórias para o Brasil nunca foram muito boas.
    Quando os atendentes do hotel tentavam se comunicar em inglês ou qualquer idioma que não fosse o daquele país, eu fingia não ouvir nada. Apenas me comunicava com sinais, era o que me restava. Eu aprendi a lição: não posso dar o braço a torcer, senão os significantes vão dar um jeito de corroer meus ouvidos para dominar meu cérebro.
    Eu apenas conheceria Pequim, passearia por aquela grande metrópole, e seria livre para sempre.
    Nos primeiros dias descobri os lugares que eu deveria me manter longe. As avenidas mais comerciais eram um terror para mim. Vários homens brancos como eu, viajando a trabalho para fazer negócios me fizeram perceber imediatamente o perigo daquela região.
    Como ando bem vestido, um engravatado veio falar comigo enquanto eu caminhava por essas ruas que cheiravam a dinheiro. Ao ouvir o primeiro “hello”, eu corri sem pensar em olhar para trás.
    Escolas, creches, universidades também me causam pavor. Qualquer lugar que doutrinasse as pessoas na linguagem, ou que estivesse povoado de crianças em alfabetização, era um calabouço que me causava uma claustrofobia ensurdecedora.
    Ver os pequenos com seus livros didáticos, aprendendo a conectar o que viam e sentiam com símbolos rabiscados em papel. Era como assistir alguém cavando sua própria cova, mas eu não poderia evitar isso sem correr o risco de ser infectado.
    Pensei em alugar um apartamento, mas apenas a ideia de precisar lidar com documentos e pessoas, me fazia temer a possível tradução. A comida chegava e saía do meu quarto, tudo ficava arrumado quando eu voltava e todos os serviços necessários eu conseguia apenas fazendo sinais. O recepcionista do hotel deve ter me achado um lunático após algumas semanas. Mas eu estava pagando bem, ou melhor, eu apenas deixava o dinheiro na mão dele, sem contar, não poderia correr o risco de ter que estabelecer uma comunicação.
    Um dia de caminhada pavoroso me atacou. Eu estava admirando um templo chinês, e um casal de brasileiros começou a falar esse terrível idioma. Seria tão mais fácil se eles apenas apreciassem e esvaziassem a mente.
    Nunca fui religioso, mas gostava de conhecer os lugares de adoração. Poder me conectar com o divino sem precisar ler versículos ou orar em palavras, sem precisar elaborar meus pecados através das minhas pregas vocais, isso era magnífico. Acredito que eu havia encontrado meu propósito no mundo, me tornar um asceta analfabeto.
    Após ter encontrado esse casal que violou o território sagrado, saí desnorteado de volta para o hotel. Eu só queria descansar e recuperar minha paz. Foi quando passei por um restaurante de culinária italiana, que me chamou muito a atenção. Resolvi entrar e experimentar, sempre gostei da comida deles. Felizmente nunca aprendi esse idioma, só precisei cobrir os olhos ao ver palavras nas paredes.
    Sentei-me numa mesa e virei o cardápio para ocultar os símbolos, e então esperei ser atendido. Uma mocinha chinesa simpática me atendeu e fingi incapacidade de comunicar. Apontei para a pizza que um senhor comia na mesa ao lado e creio que me fiz entender. Não sabia exatamente qual sabor pedir, mas isso foi uma coisa boa. Nunca mais eu precisaria tomar uma decisão, apenas com minhas mãos, caras e bocas, minhas necessidades básicas seriam cumpridas.
    Estava para voltar para o meu hotel, mas eu fiquei animado com aquela pizza, o meu pânico havia regredido, e resolvi explorar um pouco mais a noite de Pequim. Cheguei no recepcionista do hotel e dancei para que eu fosse entendido. Ele apontou para uns panfletos com desenhos de festas, e acenei para ele providenciar minha carruagem até o baile. Apenas música e dança, completamente não verbal, beber e sentir as luzes, rodeado de pessoas e sem precisar entendê-las. Era isso que eu estava precisando.
    O taxista tentou interagir comigo, mas logo percebeu que eu não estava disposto a esse tipo de ritual humano arcaico. Fiquei um pouco receoso quando ele puxou o celular e começou a falar com alguém, mas ignorei isso. Não iria discutir com ele e não queria correr o risco de entender sua conversa.
    No bar apontei para a vodka, que me deu calafrios quando li seu nome escrito no alfabeto latino, mas após algumas doses, ler qualquer coisa, seja conhecida ou não, já era impossível.
    Quando acordei estava no meu quarto de hotel. Um embrulho percorria meu estômago e um gosto amargo permeava minha boca. Estava sentado no banheiro, completamente pálido, e ao ir para o quarto, tive uma surpresa que me deixou estarrecido: a moça chinesa do restaurante italiano, estava ali. Sentada na borda da cama, me olhando. Fiquei paralisado, sem reação, e num piscar de olhos, ela havia sumido.
    Após isso, fiquei com uma névoa na minha mente. Eu sentia algo estranho, uma vontade de comer uma pizza novamente, mesmo sem disposição para tomar sequer um copo d’água. Resolvi espairecer, tirar mais um dia para observar os belos templos e estátuas de Confúcio.
    Na volta, fiz o mesmo trajeto: entrei no restaurante, apontei para um jovem solitário e a pizza que ele estava degustando, e o pedido veio. Dessa vez foi um sabor diferente. Gostei disso, meu cardápio iria variar mesmo sem ser preciso escolher. Normalmente, eu comeria o mesmo sabor de pizza, incapaz de decidir entre tantos sabores, mas agora que estou livre das amarras culturais, posso comer o sabor que vier.
    Aquela moça, eu olhava para ela e ela me olhava de volta, enquanto eu apreciava minha bela pizza. Não sabia o que esperar, não entendia o que estava acontecendo, mas a pizza estava deliciosa. Voltei para meu hotel, e depois de muito tempo, dormi feliz, sem sonhar com alfabetos tentando invadir minha casa para me ameaçar.
    Dia após dia eu segui essa rotina: nas manhãs e nas tardes, uma caminhada pela vasta história religiosa da China. Quando o sol estava indo para o ocidente, eu descobria um sabor novo de pizza. As coisas estavam tranquilas, nunca me senti tão bem alimentado, e os olhares com a atendente a cada dia ficavam mais sólidos.
    Até que, uma vez, um sabor repetido apareceu na minha frente. Não entendi muito bem o que estava acontecendo. Será que ocorreu um erro? As variedades haviam acabado? De qualquer forma, comi satisfeito, há alguns meses eu havia apreciado aquela pizza. Era só uma ocorrência do dia, no próximo, uma novidade me esperaria.
    Mas a boa nova não chegou. Outro sabor repetido. Mas novamente, comi satisfeito. Algo em mim fazia com que eu continuasse indo naquele restaurante. Era bem próximo do meu hotel, era parte do caminho de volta após visitar o meu templo predileto. Não era muito movimentado naquele horário, eu não corria muitos riscos de ouvir idiomas conhecidos. Não havia motivo para trocar.
    As semanas passaram e as repetições continuavam a ocorrer. Acredito que eu havia zerado os sabores disponíveis. Os temperos e molhos já haviam sido assimilados pelo meu paladar, muitas vezes eu levava a pizza para casa e jogava a maior parte fora, não aguentava mais repetir a mesma refeição todos os dias. Mas aquele restaurante me atraía todo dia, havia algo de magnético naquelas pizzas. Acredito que eram os olhares, os sorrisos, talvez o cabelo curto daquela atendente, ela temperava a pizza de uma forma que nunca havia visto.
    Sempre, sem trocar uma palavra, ela me servia a pizza, me olhava, recebia o meu dinheiro. Eu nem precisava apontar mais para a mesa dos outros comensais. As coisas eram tão simples.

    A tragédia começou quando comecei a entender o nome dos sabores. Ao me ver, ouvia ela gritar para o cozinheiro o nome da pizza do dia, e após dezenas de repetições, eu já sabia o que estaria no meu prato muito antes da comida chegar. Será que eu estava sendo aculturado? Mas mesmo assim, eu não poderia fugir daquele restaurante, eu estava preso ali, acorrentado aos longos braços da atendente.
    A cada dia que passava, a paranoia tomava conta de meu ser. Não apenas sabores, mas saudações, despedidas, pequenas frases estavam inundando meu raciocínio. Observar o que os outros comiam não era mais uma questão antropológica, eu estava entendendo o que acontecia na vida de cada um deles. Uma vez, estava prestes a ir embora antes da minha pizza chegar, ao estar sendo violado por uma conversa sobre futuro que um pai tentava incutir em sua filha. Minhas mãos estavam tremendo, minha perna não conseguia permanecer no chão, o suor pingava da minha testa e molhava meu guardanapo. A atendente notou, e estando há alguns passos da mesa, fiz um sinal de que estava tudo bem, mas não só isso: eu pronunciei a ela que estava tudo bem.
    Quando percebi meu ato falho, imediatamente congelei. Havia sido algo espontâneo, natural. Não entendia o que estava acontecendo. A moça me olhou com um olhar de espanto, ela pensava que eu era mudo, após tanto tempo sem nunca emitir um som. O olhar entre nós não era mais fixo, era esparso, estava tremelicando. Nesse instante, cada símbolo agora era decifrado na minha cabeça, estava sendo soterrado de significados. Sem pestanejar, coloquei o dinheiro da mesa e corri para fora da pizzaria.
    Na rua, uma vertigem tomou conta da minha pessoa. Para cada outdoor que eu olhava, não via apenas imagens de propaganda, eu lia os serviços que estavam sendo oferecidos. Cada transeunte, eu percebia a vida oculta que eles carregavam. Eu havia sido agarrado. Fugi para o hotel o mais rápido possível, ignorando até mesmo o recepcionista, me tranquei no meu quarto e me escondi embaixo dos lençóis. Eles não poderiam me alcançar ali.
    Não sei quantos dias permaneci ali. Isolado, em um delírio febril, os medos estavam voltando e tomando conta de mim. Através daquele idioma que eu havia assimilado, os pensamentos estavam de volta, turbilhando em minha mente de forma avassaladora. Meus maiores medos me paralisavam, eu lembrava de cada detalhe de minha vida, era capaz de pensar em cada fato que já me ocorreu.
    Após muito tempo em hibernação, eu precisava fugir novamente. Pequim colocou todas suas garras em meu pescoço, e estava prestes a me estrangular. Mas antes, um desejo irracional, um pecado animal me impediu de correr para o aeroporto novamente.
    Saí do quarto encapuzado com meu moletom, deixei uma pilha de notas na recepção enquanto ninguém estava ali, e corri até o restaurante italiano. Eu não poderia correr o risco de permanecer muito tempo na rua. A cada segundo que as ondas sonoras produzidas pelas pessoas refletiam em mim, eu perdia uma semana de expectativa de vida.
    Quando entrei, no mesmo horário de sempre, varri o restaurante com o olhar…
    Mas eles não cruzaram com nada. Nada que eu estava procurando naquele momento. Eu observava, cada funcionário, cada cliente, e nenhum olhar tinha a mesma cor daqueles olhos com que a atendente me encarava. A impotência tomou conta do meu ser, onde ela estava, por que ela não estava trabalhando naquele dia?
    Tentei esperar alguns minutos, ela poderia ter ido ao banheiro, estar no descanso.
    Mas ela não apareceu. Aquele olhar, que em nosso último encontro havia sido imaculado pela minha fraqueza, havia desaparecido. A avalanche sonora de significados já estava me deixando louco. Não havia o que fazer, eu precisava fugir. Mas para onde?
    Mesmo atravessando o mundo, entrando numa nova cultura, eles foram capaz de me pegar. Eu precisava me isolar. Eu precisava de uma ilha deserta. Eu nunca mais abandonaria as paredes da minha residência. Era a única solução, a única forma de proteger minha mente contra os perigos desse mundo.
    Comprei uma passagem para a Tailândia, e equipado com tampões de ouvido e muitos sinais, consegui fugir de toda civilização. Cheguei numa vila pouco habitada, comprei uma casa usando todo o resto de dinheiro que eu tinha, e iniciei minha nova vida. As paisagens paradisíacas, os destinos turísticos, tudo isso era apenas tentação, que tentavam me arrastar para fora do meu porto seguro, para que a maldita linguagem colocasse as mãos em meu cérebro.
    Nunca mais, eu estava precavido agora.

    Não foi muito difícil adquirir essa propriedade. Após descer do aeroporto, estava completamente lunático, e precisava correr ainda mais. Só estar num país distante não bastava, eu precisava ir para um lugar ainda mais longínquo. Minha linguagem de sinais teve que se aprimorar ao máximo para que eu me fizesse entender, para que me levassem até um lugar deserto. Agora, não posso confiar nem mais em minhas próprias mãos, senão começarei a projetar emoções pelas minhas falanges!
    Mesmo assim, creio que não estava sendo bem compreendido. Minha ideia era chegar numa ilha deserta, mas fui parar numa vila. Apesar da minha casa ser a maior do local, outras pessoas viviam aqui. Todos devem me achar um rico excêntrico, que ficou maluco e resolveu se tornar um senhor feudal isolado em seu castelo. De qualquer maneira, não estariam errados. Não conheci até hoje o rosto dos meus vizinhos, e nem quero. Os lábios deles se mexendo, a leitura labial que eu poderia fazer, só de pensar em ser contaminado até pela visão, isso me dá vontade de vomitar.
    Toda semana, as coisas que preciso chegam aqui. Produtos de limpeza e alimentação. Nunca gostei de limpar minha casa, mas agora, é a única alternativa. Se eu arriscasse a deixar um empregado entrar, ele poderia trazer para dentro do lar a praga que vive lá fora. Nem pensar. Pelo menos tenho algo para me ocupar e me distrair, o belo casarão é bem vasto para ser varrido e esfregado constantemente.
    A visão paradisíaca que eu tinha era uma tentação muito grande, mas eu estava precavido dessas tentações. Eu sabia o que poderia acontecer se eu fosse aproveitar as belezas do mundo sem nenhuma cautela, então, subia no cômodo mais elevado e ficava espiando pela janela, para observar se algum vizinho estava por perto. Quando não havia ninguém – quase sempre na madrugada – eu timidamente colocava meus pés para fora do meu palacete. Andava até a beira da praia, sentia a água gelada nos meus pés, mas logo eu corria de novo. Eu sentia o canto das sereias. O som das ondas, quebrando e voltando, parecia que Deus queria me falar algo. Como se não bastassem as pessoas, até mesmo Tu, Senhor!
    Mas não estava louco ainda. Sabia que era apenas coisa da minha cabeça. Percebi que ficar sem ouvir as pessoas falarem – mesmo que seja uma língua desconhecida, como ocorreu nas últimas cidades que passei – fazia mal para o meu cérebro. Sinto que estou ouvindo palavras e sussurros onde há apenas sombras. E o pior, ouço palavras e conversas em idiomas que não existem!
    Esses dias, estava para ir para a praia, mergulhar um pouco mais fundo os meus pés no mar. Eram umas duas da madrugada eu acho, o horário perfeito, em que todos os possíveis perturbadores da minha paz estariam dormindo. Estava preparando meu trajes de banho em meu quarto, quando, subitamente, ouvi vozes, vozes de dentro do meu armário. Lá estava eu, me preparando, com meu protetor solar, minha sunga, minha toalha no ombro, e o guarda-roupa tremendo, rugindo, querendo explodir para libertar a caixa de Pandora. Eu ouvia os ruídos, eu ouvi a profecia, eu ouvia todo o discurso do fim dos tempos.
    Imediatamente abandonei meu plano e me escondi embaixo da cama. Me enrolei em várias cobertas que eu tinha, e resolvi me encolher, abraçando meu próprio corpo em posição fetal e esperando que tudo ficasse bem, esperando que eu finalmente voltasse para a minha querida e amada vida placentária.
    Varei a noite, não consegui dormir. Por volta das onze da manhã, tive a coragem de me levantar e investigar o armário. Não havia nada ali dentro, e nenhum sinal de movimento. No resto da casa, tudo estava igual ao dia anterior. Eu religiosamente fazia essa varredura três vezes ao dia.
    Armadilhas em cantos estratégicos da casa estavam montadas, e iriam disparar se alguém invadisse meu lar. Nas entradas, sempre passo uma mão de tinta sobre o chão. Se alguém tentar invadir meu abrigo, será imediatamente exposto pelos seus pés enlameados!
    Minha fortaleza impenetrável estava concluída. Como precaução ainda maior, deixei um espaço destinado às entregas, assim, eu não correria nenhum risco falando com as pessoas que vêm trazer meus alimentos.
    Eu também pinto todas as embalagens dos produtos, para evitar a invasão simbólica. Assim que ouço o caminhão ir embora, fecho meus olhos. Vou andando lentamente até o depósito, com um balde de tinta preta na mão. Abro a porta – no completo instinto eu treinei esse trajeto para que ficasse automático – e cubro tudo que comprei com a mais profunda escuridão. Não vou correr o risco de que minha paz seja perturbada com embalagens escrito “pão”, em qualquer idioma que fosse.
    O único problema – e que grande problema – era os sons da natureza. Uma vez, estava sentado na minha sala, olhando para a TV. Não estava assistindo nada. Joguei o controle fora inclusive, estava apenas olhando meu reflexo na tela apagada. Subitamente, alguns passarinhos entraram pela janela e se sentaram, para se juntar ao meu entretenimento. Achei uma sensação adorável, aquelas belas criaturas, que assim como eu, não eram prisioneiras da linguagem.
    Mas logo descobri uma grande traição. O cantarolar deles, tão belo e tão sublime aos meus ouvidos, aos poucos foi se tornando… uma conversa! “A inflação de alpiste atingiu patamares estratosféricos esse mês, não sei o que vou fazer lá em casa”, “Minha esposa está ensinando nossa filha mais nova a voar, para que ela pegue suas próprias minhocas. Desse jeito não está dando, com o inverno chegando, o que faremos?”. Quando percebi que a natureza estava infectada com o pecado, imediatamente meu programa mental foi interrompido, e corri para o quarto, era preciso de uma medida drástica: peguei a espingarda, o meu último recurso contra eles, e voltei para sala correndo.
    Minha visão estava turva, minha têmpora salteava de tanta ansiedade, mal conseguia permanecer de pé, mas eu mirei, olhei as criaturas demoníacas e estava para decretar seu fim, e, para meu desespero, não ouvi o som do disparo, não ouvi a pólvora fervendo em meu calibre. Não. Eu ouvi, um grito.
    Larguei a arma assim que esse som atravessou meu corpo, e acabei acertando a televisão, estraçalhando por completo sua tela, banhando meu carpete de cacos de vidro. O meu reflexo nas rachaduras e nos cacos se espalhando por todo o ambiente, eu ouvi eles gritarem, vi a mim mesmo sofrendo, espalhado pelas centenas de pedaços estilhaçados pelo tiro. Os passarinhos continuaram apenas assistindo a situação, rindo de mim. Eles olharam para a sala, olharam para mim de joelhos, completamente pálido, e só então esses mensageiros do diabo foram embora.
    Depois disso, percebi que precisava me isolar não só do contato com os seres humanos, mas de todo e qualquer contato com o mundo. Peguei um pano velho, que estava largado, e o banhei com minha tinta preta. Amarrei, e fiz uma venda, cobrindo para sempre meus olhos. Agora, eles não mais me mostrariam seu horror.
    Antes de colocá-la, passei alguns dias treinando os trajetos da minha casa, de olhos fechados. Assim, eu conseguiria viver completamente em paz, sem me preocupar em cair e precisar tirar a venda. Era a proteção total. Mas antes de entrar na escuridão perpétua, peguei um pacote de velas que havia para emergências. A luz não mais precisaria entrar em minha casa. Dizem que a luz é mais rápida que qualquer coisa, mas não, ela não é. A sombra, a sombra pegará cada um deles, não importa o quanto corram. Basta que eu apague minha visão, e então, todos os milhares de quilômetros de extensão que esse mundo apresenta, se apagarão. Há algo mais rápido que isso?
    Com a vela na mão quebrei ela em duas metades. Contemplei, observei sua textura levemente escorregadia, e então, coloquei uma no meu ouvido direito, empurrei, desafiando minha anatomia, até que o som cessasse desse hemisfério corporal. Enfiei a vela o mais fundo que consegui, antes que a dor ficasse insuportável. Não creio que danifiquei nada, mas de qualquer forma, não importava, minha alma já tinha sofrido o bastante. Agora era preciso purificar o lado esquerdo. Peguei o outro pedaço da vela, e empurrei, empurrei, empurrei até que o som da cera se enfiando no meu ouvido, reverberando por todo meu crânio ficasse insuportável, até que… apenas um zumbido, e enfim a paz, o silêncio.
    Eu estava tão feliz, num êxtase tão grande, mas tão grande, que nem percebi quando o sangue começou a escorrer de minhas mãos e pelas minhas orelhas. Tudo estava seguro agora, o zumbido era a lembrança de que eu estava seguro. Com a venda e as velas para me proteger, finalmente eu estava no paraíso prometido.
    As semanas seguintes se desenrolaram num alívio monumental. Acordava de manhã, e não era bombardeado pelo sol, pelas paredes, cheias de runas ocultas, prontas para forçarem sua decifração em mim. Eu não mais ouvia o canto maquiavélico dos passarinhos. Tudo estava em paz. Ouvia apenas ruídos ao fundo, mais nada. Leves sons, que serviam para lembrar que eu estava vivo, mas esses sons estavam tão deturpados pela vela que morava dentro de mim, que seu significado me era desconhecido. A liberdade, doce liberdade, me abraçou finalmente.
    Decidi parar de ir para minha sala. Quando eu andava lá, o vidro que outrora fazia parte da minha televisão, perfurava meus pés. Eu sentia, eu percebia que os cacos estavam se comunicando comigo, em braile, me enviando várias mensagens. Era arriscado demais ir até lá, eu deveria ficar no quarto.
    Os meses se passaram, e pelo que lembro, existe uma época do ano em que se comemora o Natal. Eu já havia ganhado meu presente há muito tempo, então a preocupação sobre esse momento havia se dissipado. Até que resolveram me lembrar.
    Eu estava tranquilo, olhando a televisão na minha sala. Na verdade eu não estava olhando, nem sequer estava vendo a televisão, eu estava no meu quarto, mas quando você não vê nada, tudo pode ser o que quiser, todo lugar era a tela para que minha mente transmitisse o programa que fosse.
    Subitamente, ouvi estrondos. Não entendi o que estava acontecendo. Como essas coisas estavam entrando no meu tímpano? Durante alguns minutos, eu ouvia, no fundo de tudo, nos confins da mente, um som se elevando, subindo, indo até o céu para estourar. Eram fogos de artificio.
    Essa quebra do meu Nirvana após tantos meses, essa lembrança de que existe um mundo lá fora, mesmo que pequeno, me desconcertou. Mas logo que o som se dissipou, consegui me acalmar com o breu novamente.
    Foi quando comecei a perceber, que o ruído que jazia no fundo do porão da minha alma, tinha um padrão. Não conseguia reconhecer as palavras, mas eu sabia que eram palavras. Pareciam de afeto, alegria, pessoas se cumprimentando. Um ritmo surdo de felicidade alheia, que estava acabando com a minha.
    Após algum tempo de tortura, o ruído parou e eu consegui voltar a ficar seguro. Mas o fruto proibido havia sido devorado, não havia mais volta. Comecei a perceber padrões vindos dos meus vizinhos.
    Não eram palavras, nem sons distinguíveis, era apenas ausência ou existência de barulho, intervalos musicais da própria natureza. Um fino ruído, pairando no ar. O momento em que eles acordavam, o estridor das crianças. A hora do almoço, a reunião da família. Nas madrugadas, em que o bebê chorava. Em outros momentos, o mais profundo silêncio, que eu tanto apreciei. Mas isso não me fazia bem como antes. A sombra apenas me lembrava que a luz iria voltar, mesmo que fraca, mesmo que morta. Meu silêncio não era real, era simplesmente a falta deles, a falta de som. Um pequeno suspiro, antes da próxima tosse.
    Os dias se tornaram insuportáveis. Era como uma sinfonia. Há momentos em que todos os instrumentos estão na ativa. Em outros, apenas os de corda vibram o ar. Às vezes, temos um silêncio. Mas tudo faz parte da mesma melodia, são todas engrenagens desse sistema maior. Os pequenos sons que apareciam, e a surdez entre eles, eram a causa da minha desarmonia.
    O pânico tomou conta de mim. Tentei ignorar, mas ao ignorar, eu estava ativando meus pensamentos, estava ativando as línguas que tentei esquecer. Tentei pensar em outra coisa, mas então me vinham outras mensagens, que me lembravam da minha vida passada, dos meus pensamentos de sempre. Tentei enfiar a vela mais fundo, mas isso só deixava os sons mais finos, mais ausentes.
    Eu enfiava cada vez mais fundo, cada vez mais o pavio da vela fazia cócegas nos meus neurônios, até que passei por esse vestíbulo e perdi a noção da realidade. Não sabia mais o que era silêncio verdadeiro, o que era invenção sonora de minha mente, e o que era uma briga de casal ocorrendo lá fora. Tudo se misturava, se juntava e se transformava num carrasco para torturar o que tanto lutei para conquistar.
    Minha maior guerra travada falhou. Tirei a venda, e quando vi a luz após tantos meses na escuridão, senti uma dor e uma tontura que me fizeram nausear e desmaiar por uns instantes. Caí de lado, batendo a cabeça no chão, fazendo com que a vela na minha orelha esquerda se cravasse ainda mais no meu crânio, me produzindo uma dor lancinante, um sofrimento impossível. Não aguentei: após tanto tempo, desde a moça em Pequim, vocalizei um som, um uivo.
    Imediatamente levantei, retirei a vela, que estava coberta de cera e de sangue, com um cheiro pútrido, e a arremessei longe. Os sons, ao serem combinados com a luz que eu estava desacostumado, me fizeram entrar num colapso nervoso imenso, comecei a ouvir vozes e enxergar alfabetos em cada canto da minha parede, em cada farfalhar do ar no cômodo. Eu gritava, e berrava, ora em alemão, ora em francês, ora em profundo silêncio, esse idioma maldito que havia me destruído. Por ficar tanto tempo sem vibrar minhas pregas vocais, meus gritos me causaram uma dor na garganta terrível, que junto com meus ouvidos que vazavam sangue, me faziam tremer ainda mais.
    Logo ouvi passos correndo e subindo as escadas, vindo em minha direção. Eram meus vizinhos, que por tanto tempo me achavam um excêntrico, agora deveriam me achar um monstro. Em meus gritos abissais, em minhas feridas cocleares e no meu odor de quem há muito tempo fugia do código morse que os pingos do chuveiro exibiam, eles não viam um viajante, mas uma besta em sofrimento. O olhar de terror deles, as conversas entre si, as crianças tapando os olhos, tiveram mais significado que qualquer dicionário esfregado na minha face.
    Como um animal encurralado, olhei para a janela e não restava dúvidas. Eu pulei, estourando o vidro e danificando ainda mais meu corpo, caindo desajeitado no chão, rolando na terra e torcendo meu pé, eu rastejei e corri, eu precisava fugir, eu precisava.
    Não sei por quanto tempo vaguei, mas quando achei que tinha despistado eles, entrei no mar para me limpar dessa pele asquerosa que cobria meu corpo. Outro país, era só ir para outra língua desconhecida, outra civilização que não me assimilara, e tudo estaria salvo. Dessa vez, a língua de sinais pouco me importava, usei de todas as artimanhas que tinha para conseguir entrar dentro de um avião e fugir daquele inferno.

    Fui para Marrocos e de lá para o Nepal, que só me trouxe mais desgraças, e no Japão todos me olhavam, todos eles continuaram a me destruir. Por mais que eu tentasse fugir e ficar em paz, alguém arrumava um jeito de me fazer compreender, de me fazer me sentir enturmado entre eles. Fui então para a Islândia para Dinamarca, depois fugi pelo mar até a Holanda, para logo desabar na Austrália.
    Não importava o que acontecia, não importava em quantos médicos eu passasse, nenhum deles conseguia descobrir meu problema, nenhum terapeuta e nenhuma abordagem que existisse nesse mundo conseguia me dar paz. Tentei Argentina e o Chile, até que quando percebi, estava novamente no Brasil.

    Há quanto tempo não vinha para esse lugar, esse lugar que tanto tempo vivi, onde cresci, onde amei, e principalmente, onde descobri que a língua é uma maldição. Desembarquei do avião, fui saindo pelo aeroporto ainda animalizado. Ler cada placa, ver as pessoas que sempre vi, falando as palavras que sempre falaram. Depois de tanto tempo fora, achei que teriam mudado algo, mas todos parecem iguais, falando as mesmas gírias, falando das mesmas dores.
    Eu andava devagar, em passos tímidos e hesitantes, olhando de um lado para o outro e tentando não deixar que eu escutasse demais.
    Saí do aeroporto, andei pelas ruas, olhei para os bares que nunca mudavam, os transeuntes que trombavam comigo no metrô, os carros que me buzinavam no horário de pico. Olhei crianças com as mães, casais de brasileiros, amando brasileiros, e falando brasileiro.
    Meu andar começou a ficar mais firme, parecia tão natural tudo que eles diziam, eu não prestava atenção, agora que finalmente podia reconhecer que… eles falam a mesma coisa em qualquer lugar do mundo.
    Ainda meio corcunda e acuado, mas mais solto, decidi que iria comer um pastel. Há quanto tempo eu não comia um. Talvez eu até fosse pedir em voz alta, ao invés de apontar para o que me parecesse mais saboroso. Eu poderia até conversar com o atendente sobre o jogo que estava acontecendo. Será que ainda torcem pro Corinthians aqui? Eu poderia ir ver um jogo depois, ouvir todo mundo cantar em uníssono quando fizéssemos um gol. Talvez, isso não fosse ser tão ruim.
    Olhei para o outro lado da rua em que estava, já longe do aeroporto, e vi uma pastelaria. Eu poderia ler seu nome, e ele não me amedrontava, mas… Um pastel de carne, de queijo, ou do que? O pastel não viria para mim em variedades sozinho, eu teria que escolher. Mas será que eu quero realmente escolher? Conseguir pensar nas coisas não é tão bom quanto parece, não sei se é isso que quero, mas vou mesmo assim.
    Assim que coloco o pé fora da calçada, olho para uma placa, que chama minha atenção. Eu posso ler as coisas, entender seus significados. Acho que não preciso fugir de tudo. Talvez eu possa entender as pessoas, talvez eu possa me entender. Vou tentar, começando pequeno, um exercício para aquecer e me aterrar.
    A placa é vermelha, octogonal, esses símbolos, um tempo atrás iriam me remeter tanta coisa, mas agora, só penso na placa. Está escrito, bem, vamos ver, P-A-R-E. Pare? Devo parar? Ou devo continuar? A placa está me dizendo isso, talvez eu devesse seguir o que ela diz, talvez esse seja meu processo de reabilitação.
    Mas como vou pegar o meu pastel se ficar parado aqui? Ele está tão cheiroso, o seu cheiro, está tão bom, mas, enquanto o cheiro do pastel saía da pastelaria e atravessava a rua para atingir minhas narinas, o sinal verde fazia com que o som das rodas derrapando para frear atingisse meus ouvidos também. P-A-R-E. Eu estou parando.
    É o que eu deveria fazer? Quando desvio o olhar da placa, apenas vejo o caminhão tombando em minha direção, tentando desviar para não acabar comigo. Talvez, ele quisesse parar também. De qualquer forma, acho que posso entender os signos agora, nunca me fez tanto sentido.
    PARE.
    Enquanto tudo se esvanece, o ritmo do meu coração começa a parar. Isso me lembra de como era na Tailândia. Escuro, ouço vozes mas não consigo distinguir, tum, tum, tum, cada intervalo entre as batidas fica maior, o silêncio só cresce, me sinto no útero novamente, ouvindo o coração da minha mãe, tum, tum a sinfonia está chegando ao fim, tum.
    Olhando a placa de PARE, tomei minha decisão, não vou até a pastelaria, acho que está na hora de parar.