Gosto de estar doente. Meu corpo se torna mole, suave, uma gelatina de colágeno. Poderiam dar uma colherada no meu cérebro, ele derreteria em prazer. Não queria ter tomado o remédio. Gripado, meu catarro não leva apenas os microorganismos embora. Leva as ideias, minha pneumonia cerebral. Me sinto sem energia. Estando são, eu conseguiria pensar; teria disposição para escovar os dentes, teria disposição para formar um nó em minha garganta, torcendo minhas cordas vocais de dentro para fora. Eu travo. Sinto o horror emergir. O estridor dos gritos. Escuto eles na beira da minha cama, falando sobre mim. Creio que não há anti-inflamatório para isso. Mas, quando estou doente, eles se afogam. Dispneico, a esperança respira. Meu corpo não tem energia para alimentá-los. Eles agora são sussurros, abafados pela orquestra torácica. Do fundo do meu pulmão, com meus alvéolos inundados, eles sibilam. Não há excedente energético para pensar no fim. Moribundo, nunca tive tantos planos. Cataléptico, sonho em fugir de minhas mãos, que anseiam pelo meu corpo. Minha face é mais ardente que qualquer incêndio. Poderiam ferver qualquer ideação nesse rosto febril. Uma boa purgação sairia disso. As mãos purulentas, que tentam se enfiar nos meus pensamentos, se tornando puro plasma. Convulsões abalando todos os cenários imaginados. Os pecados não me consomem mais, a carcaça precisa queimar os estreptococos.
Acho que a pílula está funcionando. O suor começa a me abandonar, a vitalidade volta a correr sob minha pele. Sinto que os demônios escorregam os dedos em mim, fluindo para meus capilares. Como eu faço para ter o nariz trancado novamente?
me espetaram com seu tridente tentaram me operar lobotomização
me libertei da cruz e da balança fugi do átomo e da grife apaguei o número cheguei ao Fim.
mas não restava mais
nada
se não existe nada me nadificarei nadar-me-ei para nadar até o fim
nadando agora, numa tela banheira de sangue tão bela minha nave espacial feita dos parafusos da minha prisão para voar com ainda mais dor até poder nadar nas estrelas
Meu pano, minha água e meu detergente são os maiores genocidas que eu conheço. É engraçado, se eu pisoteasse um gato até que ele morresse, eu seria preso por maus-tratos aos animais. Mas, quando eu como o bife oriundo das vacas, todos batem palma. Afinal, quem não gosta de um churrasco? Quanto mais raras, mais caras são as vacas. Uma vaca falante, que desenvolve uma filosofia niilista própria, seria a vaca mais valiosa do mundo. O frigorífico faria uma festa por ter esse espécime. Eles lucrariam muito. Até vejo um grande leilão, numa ilha tropical. Helicópteros de todo o planeta indo até lá. Um lance atrás do outro, uma gritaria. Enquanto isso, os pobres estudantes de filosofia infiltrados estariam anotando vorazmente a sabedoria do bovino, com água na boca pelo conhecimento. Logo chegaria o valor vencedor: um bilionário hedonista comeria a vaca niilista. Aposto que esse bilionário nunca foi niilista. Aquela ilha era uma velha conhecida dele e seus amigos. Tendo tanta vida em potência no banco, ele pode transformar em ato qualquer vontade que tiver. Mas ele não fez mais isso. Alguns dias depois de degustar a tão comentada vaca niilista, ele compra um conversível vermelho e bate em alta velocidade. Não foi um acidente de trânsito, como todos pensam. Sei que foi proposital. Da água que ele urinou e foi para o esgoto. Do esgoto, para o lençol freático. Do lençol freático, para a mamãe vaca. Da mamãe vaca, para o leite mamário. Do leite mamário, para a vaca niilista. Da vaca niilista, para o bilionário. Do prato do bilionário, para o poste pintado em vermelho. Agora seus miolos estão espalhados pela rua. Alguns transeuntes tiram fotos, outros até recolhem os restos de maneira escondida. Seus órgãos têm proteínas da almejada vaca niilista. Visão estupenda. Uma profecia autorrealizada. A vaca niilista o contaminou, ou foi ele quem contaminou a vaca?
Ninguém ficaria comovido com a morte da vaca niilista. Claro, os amantes dos animais ficariam. Uma vaca falante seria algo para ser estudado, e não comido. Os amantes dos animais protestariam com raiva contra o bilionário. Queimando bancos, quebrando vidraças, e nesse processo, esmagando formigas. Curioso, não vejo os amantes dos animais defendendo formigas. Nem falando do meu detergente. Com ele, eu limpo minha mesa. Com meu pano, eu esmago milhares de microrganismos. Eu massacro as formigas. Eu me torno o senhor dos mundos, aquele que decide quem vive e quem morre. Potência infinita.
De qualquer forma, com meu pano, minha água e meu detergente, os miolos começam a desgrudar do asfalto.
Soneto do beta
Sete anos de mangina Jacó betava
Chadão, pai de Raquel, stacey bela;
Mas não queria ser alfa, era um beta,
E a ela só por pussy pretendia.
Os dias, na copagem de um só dia,
Passava, contentando-se com segui-la;
Porém o chad, usando de moggada,
Em lugar de Raquel lhe dava becky.
Vendo o triste beta que com bluepill
Lhe fora assi negada a sua dama,
Como se a não tivera conquistado;
Começa de servir outros mil anos,
Copando: – Mais betara, se não fora
Para tão longo coito tão curta a pill!
P.S.: releitura do poema "Sete anos de pastor Jacó servia", de Camões
Fui levado até a oficina de Adão para ser calibrado. Colocaram o compressor em minha boca, fui inflado até me esferizar, para ser solto pelos ares.
Voei. Cheio de mim mesmo, e de ar. Me inclinando contra o vento para decidir meu rumo nos céus. Quase fui triturado pela turbina que veio me buscar.
Cheguei perto demais do sol, mas meu nome não é Ícaro então o abracei. Só estourei quando caí no mais completo vácuo, após a morte de todas as estrelas.
a criança acorda de mais uma noite de sono decide finalmente ser o algoz. uma pedra escolhida a dedo por ser uma pedra qualquer ela arremessa a pedra como se alcançasse algo mas a pedra não quica no rio afunda
levada pelas correntezas a pedra não lutou contra o menino arrastada por todo o leito fluvial atingindo diversos peixes mas sem tocar nenhum
a pedra conhece todos os oceanos, todos os leitos, todo a predação tantas oportunidades de metamorfose se tornar bauxita, rubi, topázio participar de aneis, armaduras, parafusos mas ela permanece sendo arrastada sem questionar sem desviar sem tentar mesmo contemplando o ardor das rochas magmáticas as esculturas criadas do mármore até mesmo a velocidade do silício
uma massa solta indiferente à fundição que a espera a pedra quer ser escolhida em paz sem sedimentar sua existência até virar mais uma pedra
não vou, não sou, eu quero quero ser arremessado um Geworfenheit afundando até morrer
Sempre fui de brincar com besouros. Deixando-os de ponta cabeça, vendo se contorcerem, sem desconfiar que quando enfim voltassem, logo seriam pisoteados.
Quando a vida me deu antenas, nem tentei me levantar.