
entre
entre lá e entre cá
entre um oi e até já
entre aqui e o será
entre o fique e o vá
eu escolho
não entrar

entre
entre lá e entre cá
entre um oi e até já
entre aqui e o será
entre o fique e o vá
eu escolho
não entrar

amizade
gostaria que todos meus amigos morressem
de uma forma trágica
todos em um único momento
assim nunca mais eu precisaria
encarar ninguém
e teria motivo suficiente
para pisar sem ser tocado
com os sobreviventes limpando minhas sujeiras
e bebendo dos meus rastros
dessa forma pode ser
que eu não precise enfrentar
a remota possibilidade
de perceber que talvez
eu não seja um bom amigo

inerte
a criança acorda de mais uma noite de sono
decide finalmente ser o algoz. uma pedra
escolhida a dedo por ser uma pedra qualquer
ela arremessa a pedra como se alcançasse algo
mas a pedra não quica no rio
afunda
levada pelas correntezas
a pedra não lutou contra o menino
arrastada por todo o leito fluvial
atingindo diversos peixes
mas sem tocar nenhum
a pedra conhece todos os oceanos,
todos os leitos, todo a predação
tantas oportunidades de metamorfose
se tornar bauxita, rubi, topázio
participar de aneis, armaduras, parafusos
mas ela permanece sendo arrastada
sem questionar
sem desviar
sem tentar
mesmo contemplando o ardor das rochas magmáticas
as esculturas criadas do mármore
até mesmo a velocidade do silício
uma massa solta
indiferente à fundição que a espera
a pedra quer ser escolhida em paz
sem sedimentar sua existência
até virar mais uma pedra
não vou, não sou, eu quero
quero ser arremessado
um Geworfenheit
afundando até morrer

festas
luzes radiantes rasgando minha retina
dormente
sons estonteantes em minha mente sussurram
ausente
“olhe as perturbações que sua maldita cabeça
sente
não é seu lugar, até quando vai continuar,
demente”
finjo que não ouço, mas está em todo lugar
as vezes penso, se meu lugar não é em marte
longe de tudo isso, quem sabe assim eu seja
feliz