
O homem cavalo
Numa bela manhã, após um sonho que lhe revelou a estrutura harmônica do universo, Felipe decidiu que iria aprender a tocar guitarra para criar uma banda extraordinária.
Porém, após alguns meses de prática — recheada de escalas, trocas frustradas de acordes e desafinação — a procrastinação o venceu. O instrumento, que fora o símbolo da rebeldia de Felipe, agora havia se tornado uma bela decoração de seu quarto, que ele pegava ocasionalmente.
Meses depois, ele percebeu que nunca teria dedos ágeis como Slash, e assim anunciou a venda de seu amplificador.
Passaram-se algumas semanas e Felipe começou a estudar alemão.
Seu objetivo era grandioso, mas após seu mapeamento genético e a descoberta de suas origens germânicas, Felipe considerou que alcançaria o resultado com algum esforço: ele escreveria o novo “Fausto brasileiro”, e seria conhecido por todos como o Guimarães Rosa do século XXI.
Porém, após sofrer tentando compreender o que eram declinações, ele percebeu que talvez sua ambição fosse um pouco desmedida.
Depois de tantas navegações por aquela língua bárbara, com inúmeras frustrações sempre que ele procurava os verbos nas orações — e apenas encontrava adjetivos — Felipe desistiu do seu “Projeto Goethe”.
Determinado a parar de ter hobbies inúteis, Felipe decidiu que iria ficar rico. Para isso, ele iria começar a programar; dessa vez, era para valer, ele dizia para todos.
Felipe passou duas semanas lendo avaliações de cursos, procurando os melhores vídeos que explicavam os jeitos mais eficientes de começar a programar. Ele entendeu a versatilidade do Python, entendeu a importância das estruturas de dados, e tinha certeza de que se fosse colocado para criar a grade de um curso de ciência da computação, a faculdade se tornaria o maior polo tecnológico do planeta.
Porém, quando ele percebeu que teria que estudar — e não apenas arquivar nas suas pastas — as dezenas de livros em PDF, ele hesitou. A sua ideia genial de aplicativo já havia sido criada no Vale do Silício, então todo aquele esforço seria em vão.
Ele nunca seria o novo Zuckerberg, nunca criaria uma empresa unicórnio e, assim, na mesma velocidade com que armazenou tantos cursos, ele os excluiu de seu computador.
Exausto de tantas frustrações e tapas da vida, Felipe resolveu sair da cidade e ir para o campo. Lá ele queria se reencontrar com seu verdadeiro eu, longe das pressões da vida moderna. Esse “matadouro de sonhos” era como chamava o mundo ao observar as noites estreladas da roça.
Para relaxar e se conectar com a natureza, começou a fazer aulas de equitação. Assim, ele habitaria seu corpo, deixaria o mundo das idealizações e seria um só com o amado animal.
Porém, logo na primeira aula as coisas não estavam certas; mais uma vez ele sentia um problema fatal. Ele percebeu que nunca seria um cavalo.
Então, Felipe vendeu sua casa no campo e usou todo o seu dinheiro para comprar feno. Começou a viver de forma quadrúpede, e finalmente ele era amado por quem realmente era.
Por alguns anos, Felipe se tornou a grande atração turística da sua cidade, trazendo muito movimento e felicidade para as crianças que subiam em suas costas.
Um dia, não ouviram seu familiar relincho matinal e o encontraram caído no estábulo.
Dizem que o laudo do legista tinha apenas uma linha:
“Intoxicação por celulose.”
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