
Ventilação
Eu me lembro daqueles dias na escola. O ventilador, girando, girando, girando, assim como eu, no gira-gira, girando sozinho, assim como meus pulmões, voando, voando, voando, sem conseguir respirar.
Meus amigos nunca ficavam contentes. Quando estava desligado, queriam ligar o ventilador. Quando o ventilador girava, queriam desligar ele. O vento fazia os papéis voarem, os cabelos dela, aquela mecha, tão linda, flutuando como um anjo pelo seu rosto.
Eu não me importava muito com o ventilador, mas ele sim. Ele sempre preferia quando estava ligado. Gira, gira, girando, eu gosto disso, me acalma. Ele brinca muito comigo, sempre. Sempre que o papai chega girando em casa, e faz a mamãe girar também. Ele pega o meu pião, e a gente brinca juntos, no guarda-roupa, até que o papai vai dormir.
Queria que ele brincasse comigo também, mas ele fica girando muito depois que ele e a mamãe brincam de girar. Esses dias uns homens estranhos foram em casa, acho eles foram girar com meu pai. Sinto falta dele, não sei por que eu e mamãe moramos na vovó agora. A vovó também não gira mais, desde que o vovô se foi. Minha mãe disse que o vovô foi girar em um lugar melhor. Mas não sei porque a vovó não foi com ele. Acho que os pulmões dela têm algum problema.
Gira, gira, girando. Eu queria girar, girar essa borracha. Às vezes eu acho que sou como o grafite do meu lápis. Estou aqui e agora, mas, basta a borracha chegar girando, e eu desaparecerei.
Eu não lembro de tudo que já apaguei usando minha borracha laranja. Nenhuma das criaturas desenhadas que me ajudaram a aprender tantas coisas. Eles devem chorar bastante ao serem destruídos dessa forma.
Será que alguém vai lembrar de mim quando me apagarem?
Assista esse conto no YouTube: https://youtu.be/uMx4NU7zhX4?si=BkYAJNLxvWwG6aXu

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